Em um mundo onde a tecnologia avança a passos largos, a fotografia e a modelagem digital tornaram-se ferramentas essenciais para capturar momentos, preservar memórias e construir projetos de arte, arquitetura e design. Percebo a inquietação de que essa dependência das câmeras, especialmente as de nossos smartphones, possa nos distanciar de uma valorização autêntica do mundo ao nosso redor. Este artigo destaca a importância do desenho, não apenas artisticamente, mas também como meio para perceber a beleza e os detalhes do nosso ambiente, enriquecendo nossa compreensão da realidade.
Desenhar é uma atividade multifacetada que serve para explorar, expressar e documentar o mundo. Oferece uma chance inigualável de observar e entender profundamente o que nos cerca, algo que a fotografia, por mais avançada que seja, muitas vezes não consegue proporcionar. O ato de desenhar vai além do prazer estético. É uma forma de experimentar o mundo de maneira mais consciente e detalhada.

Enquanto uma câmera pode capturar uma cena em segundos, o processo de desenhar exige uma observação prolongada e meticulosa. Isso nos força a notar nuances de forma, textura, luz e sombra que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. Como exemplo, basta compreender por que as ilustrações botânicas e científicas ainda são utilizadas e são necessárias: a observação e representação do artista permitem um maior entendimento do objeto retratado.
Nos dias atuais as inteligências artificiais (IAs) estão nos principais debates em todas as áreas profissionais, e na criação artística não poderia ser diferente. As IAs podem gerar imagens quase perfeitas, mas o desenho à mão livre ainda permite uma expressão única e autêntica das emoções, percepções e conhecimentos do artista. Cada traço ou pincelada carrega uma assinatura individual, algo que algoritmos não podem (ainda) imitar. Conforme exposto neste texto, desenhar à mão livre promove habilidades de observação, paciência e desenvolvimento motor fino, experiências artísticas que as ferramentas digitais não podem oferecer.
John Ruskin, crítico de arte e artista proeminente do século XIX, escreveu “The Elements of Drawing” como um guia prático para os aspirantes no desenho e na pintura. A Revolução Industrial estava transformando a paisagem urbana e rural da Inglaterra, e havia um crescente interesse pelo papel da arte na vida cotidiana. Este livro reflete essas transformações, enfatizando a importância do desenho como uma forma de ver e entender o mundo. A natureza ocupa um lugar central na filosofia do romantismo tardio de Ruskin. Ele encoraja os artistas a desenhar na natureza, acreditando que isso aprimora suas habilidades técnicas e proporciona uma compreensão profunda das formas naturais.
Um dos pontos centrais do livro é a importância da observação atenta. Ruskin insiste que o artista deve aprender a ver antes de desenhar, enfatizando que a observação cuidadosa é a chave para a precisão e a expressividade no desenho. O autor detalha várias técnicas fundamentais, desde o esboço inicial até o sombreamento e o acabamento detalhado. Ele acredita que a escolha correta dos materiais é crucial para o sucesso artístico.
Ruskin aborda conceitos fundamentais de perspectiva e proporção, oferecendo métodos claros e acessíveis para entender e aplicar esses princípios no desenho. Embora o autor valorize a originalidade, ele também reconhece o valor da imitação no aprendizado. Ele propõe que a replicação de trabalhos de mestres seja um método eficiente para adquirir técnicas e cultivar um senso artístico de estilo. Encoraja os artistas a desenharem diariamente, mesmo que seja apenas por alguns minutos. Ele acredita que o ato de desenhar e criar arte tem um valor moral intrínseco, ajudando a desenvolver o caráter do artista.
Desenhar oferece uma pausa necessária e uma oportunidade de nos reconectarmos à essência da observação e da expressão humana. Em um mundo dominado pela tecnologia, o ato de desenhar nos permite desacelerar e apreciar as sutilezas da vida. Esta prática não somente enriquece nossa percepção, mas também nos ajuda a preservar nossa criatividade.
Além dos aspectos práticos e técnicos, desenhar pode ser uma atividade profundamente meditativa. A concentração exigida pelo desenho pode ajudar a acalmar a mente e reduzir o estresse. Este benefício adicional torna o desenho uma prática valiosa para o bem-estar mental e emocional.
A prática do desenho, por meio de croquis e sketchbooks, é uma ferramenta poderosa para profissionais de áreas como arquitetura, design de moda, audiovisual e artes plásticas. A habilidade de capturar rapidamente uma ideia ou observação pode ser essencial para o desenvolvimento de projetos mais complexos e elaborados.
Desenhar também promove uma compreensão mais profunda dos objetos e ambientes que nos cercam. Ao tentar recriar o que vemos no papel, somos forçados a observar com mais atenção, a perceber detalhes que poderiam passar despercebidos em uma simples fotografia. Esta prática de observação aguçada pode beneficiar não apenas artistas, mas qualquer pessoa que queira desenvolver uma maior sensibilidade e apreciação pelo mundo ao seu redor.
A combinação de técnicas tradicionais e digitais no desenho oferece uma riqueza de possibilidades criativas. Embora as ferramentas digitais proporcionem conveniência e eficiência, as técnicas tradicionais mantêm uma conexão tangível e direta com o material. Integrar as abordagens pode ampliar significativamente o potencial expressivo de um artista.
Quando estudamos a paisagem na arte e a concepção de espaços arquitetônicos em desenhos artísticos e técnicos, nos deparamos com um conceito conhecido como perspectiva. Ela é o método que permite a representação de objetos tridimensionais (altura, largura e profundidade) em superfícies bidimensionais, por determinadas regras geométricas de projeção.
Croquis, de forma ampla, designa um desenho semelhante a um esboço, porém com qualidades próprias e uma linguagem autônoma, não sendo apenas um simples esboço que antecederia um projeto mais elaborado. É comumente aplicado à arquitetura, ao design de moda, ao meio audiovisual e às artes plásticas em geral. Se caracteriza pela agilidade no registro da ideia ou da observação. Croquis não necessita de virtuosismos técnicos nem demasiado rigor de acabamento. Por outro lado, o desenhista necessita compor, com poucos elementos e agilidade, uma harmonia na composição capaz de sintetizar na imagem os objetivos pretendidos ou as impressões rápidas. Esta forma de desenho auxilia tanto na percepção espacial quanto na composição, com rapidez e praticidade.
Ao longo da história, muitos artistas e arquitetos renomados têm demonstrado a importância do desenho à mão livre em seu trabalho. Leonardo da Vinci, por exemplo, é conhecido não apenas por suas pinturas, mas também por seus detalhados cadernos de esboços que incluem estudos anatômicos, invenções e observações da natureza. Seus desenhos são um testemunho da sua curiosidade insaciável e de sua habilidade técnica.
Seus desenhos são um testemunho da sua curiosidade insaciável e de sua habilidade técnica. Outro exemplo é Michelangelo, cujos esboços preparatórios para a Capela Sistina e outras obras monumentais revelam a profundidade de seu processo criativo. Ele utilizava o desenho para explorar formas, composições e ideias, o que o ajudou a alcançar a perfeição em suas obras acabadas.
No campo da arquitetura, como exemplos modernos, Frank Lloyd Wright e Michael Imber são conhecidos por seus croquis detalhados e desenhos à mão livre que capturam a essência de suas inovadoras ideias arquitetônicas. Seus esboços iniciais muitas vezes serviam como base para o desenvolvimento de projetos mais elaborados, mostrando como o desenho pode ser uma ferramenta essencial no processo criativo.
Entre os designers de moda, Alceu Penna, Karl Lagerfeld e Yves Saint Laurent utilizavam croquis para capturar suas ideias e criar ilustrações que definiram tendências no mundo da moda. Seus desenhos são exemplos de como o croqui pode ser uma forma ágil e expressiva de comunicar conceitos visuais.
Para estudar desenho, algumas recomendações são essenciais. Aos meus alunos, recomendo os seguintes pontos:
- Não existe fórmula mágica ou método único de aprendizagem. Cada pessoa pode encontrar sua própria maneira de aprender e progredir no desenho. Professores podem ensinar um assunto de diferentes formas: uma aula de perspectiva, por exemplo, pode ser introduzida de diferentes maneiras.
- Disciplina: desenhar sempre, diariamente, algumas horas durante a semana. A prática constante é crucial para o desenvolvimento das habilidades.
- Técnicas variadas: diversifique nas técnicas e desafie-se a experimentar diferentes materiais e abordagens pode enriquecer seu repertório artístico. Experimente técnicas secas e úmidas; experimente diferentes suportes, como papéis e telas para pintura.
- Croquis: para todo projeto, exercícios e trabalhos acadêmicos, realize diversos estudos à mão livre, soltos e rápidos. Depois, avance para o desenho técnico.
- Sketchbook: use sempre seu caderno ou sketchbook e ande sempre com um na mochila ou bolsa. Tenha vários, de diversos tamanhos, para capturar inspirações onde quer que esteja.
- Desenhos complexos: desenvolva, constantemente, que podem demorar dias para terminar. Este tipo de trabalho pode ajudar a aprimorar os detalhes e a paciência.
- Técnicas tradicionais e digitais: desenvolva ambas as linguagens e ferramentas. A combinação de técnicas pode abrir novas possibilidades criativas e mantê-lo atualizado.
- Sempre pratique desenhos de observação, a partir de fotografias e de criar a prática de observar o mundo real, o mundo fotografado e criar a partir da imaginação é igualmente importante.
- Grandes artistas e arquitetos: estude os desenhos, pinturas e projetos dos artistas, designers e arquitetos da história e da atualidade. Aprender com os mestres pode proporcionar visões valiosas.
- Visite exposições e galerias de arte. A contemplação de diferentes formas de arte pode inspirar e influenciar positivamente seu próprio trabalho.
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