Boletim Informativo – INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS
Edição: 11 | abril de 2025
Por Marcelo Albuquerque, eleito para a cadeira no. 54 – Patrono Cônego Raymundo de Trindade
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A história é ordenada em fontes, documentos, artefatos arqueológicos, obras de arte e registros de tradições, em sua maior parte. Se esses objetos não refletem o que afirmamos, temos um aviso diante de nós para evitar enfocar, negar ou exaltar o passado de maneira ideológica, visando os interesses pessoais no presente. Autores como Hans Staden, Pero de Magalhães Gândavo, Frei Vicente do Salvador, Antonil, Francisco Adolfo de Varnhagen, Padre Raphael Galanti, João Ameal, Sérgio Buarque de Holanda, José Guilherme Merquior, entre outros, nos apontam visões sobre o tema dos descobrimentos ao longo da historiografia brasileira. A cultura popular, as artes e a literatura apresentam exemplos significativos desse retorno constante a este tema, como a Antropofagia modernista da Semana de 22. Apresento a seguir duas obras para ilustrar este texto, de períodos distintos:

Foto: Manuel Joaquim de Melo Corte Real: Manuel da Nóbrega e seus companheiros resgatando o corpo de um índio morto durante ritual antropofágico. Óleo sobre tela, 1843 (acervo do Museu de Belas Artes, RJ). Fonte: Wikimedia Commons (domínio público).

Foto: Túmulo do Cacique Tibiraçá, de José Cucé, bronze e granito preto, na cripta da Sé de São Paulo. Foto: Marcelo Albuquerque, 2024.
A descoberta do Brasil é um tema vasto e complexo, que atravessa séculos de debates históricos, interpretações e revisões. De acordo com Merquior, é costume iniciar a história da literatura nacional
pelo exame de obras escritas, quase sempre sem intenção artística, por colonos ou viajantes, nos dois primeiros séculos do Brasil. São obras que apontam as condições de vida e mentalidade dos primeiros habitantes. Já no Segundo Reinado do Brasil, a pintura de Corte Real retrata o encontro entre duas grandes culturas, uma vinda da Europa renascentista e outra formada por povos indígenas que viviam no atual território brasileiro, muitos ainda em estágios paleolíticos e neolíticos. De acordo com Mircea Eliade, esses encontros de culturas em estágios civilizacionais e tecnológicos diversos constituem, de alguma forma, parâmetros para estudos de culturas ancestrais (paleolíticas, em especial) pelos eruditos e cientistas dos dias de hoje.
Sempre me pergunto como seria a história das Américas caso fossem ocupadas por outras civilizações que também dominaram técnicas de navegação e expansão marítima, como os chineses ou mesmo os muçulmanos, caso tivessem condições políticas e tecnológicas semelhantes às dos portugueses no século XV. Essa reflexão não pretende transformar a história em exercício de futurologia, mas serve para destacar que o encontro entre culturas é sempre um caminho aberto a possibilidades e contingências. A chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, trouxe o choque direto entre duas culturas que se desconheciam mutuamente. De um lado, a cultura europeia renascentista, herdeira do pensamento clássico greco-romano e da cristandade medieval, com seus saberes e desenvolvimento tecnológico, jamais imaginaria um território de tamanhas proporções como as Américas. Do outro lado, sociedades nativas, como os Tupis, Tupinambás, Tamoios e Tapuias, entre outros, em constante confronto entre si, organizadas em estruturas tribais, sem escrita formal, e que mantinham modos de vida ligados à caça, pesca, coleta e uma agricultura rudimentar. Os povos do litoral brasileiro denominavam sua terra costeira de Pindorama, e tinham pouco contato com os vizinhos dos Andes e conhecimentos das dimensões reais da América do Sul, como demonstram os relatos da expedição do caminho guarani de Peabiru, no século XVI. Novas descobertas arqueológicas apontam para assentamentos e geoglifos mais complexos no interior do Brasil com conexões com
os Andes. A incursão dos povos do litoral ao interior era difícil, devido às constantes guerras tribais, que mantinham o interior ignorado para muitos habitantes da costa.
Os povos nativos das Américas entraram em contato com um novo universo cultural e cartográfico: terras jamais conhecidas e imaginadas, como o Egito, a África meridional, a Índia, a China, além da própria Europa. As ferramentas e armas europeias trouxeram novas possibilidades a estes povos, tanto para desenvolvimento próprio como para as guerras com seus inimigos antigos; guerras e alianças as quais os europeus souberam tirar proveito. Entre esses indígenas, existiam práticas culturais que escandalizavam os europeus, como o ritual antropofágico, em que a carne humana era consumida em cerimônias de vingança e honra. Os missionários da Companhia de Jesus, liderados inicialmente por Manuel da Nóbrega, chegaram ao Brasil em 1549 com a missão de catequizar os povos indígenas. Desde o princípio, declararam guerra à antropofagia. Há registros emblemáticos, como o episódio na Bahia, tema da pintura aqui apresentada, em que os padres resgataram um corpo prestes a ser cozido para um banquete, enfrentando fúria e hostilidade da comunidade indígena. Esse confronto tornou-se um dos primeiros e mais intensos embates culturais da história brasileira. Com apoio dos governadores-gerais, como Tomé de Sousa e Mem de Sá, os jesuítas conseguiram impor proibições formais às guerras intertribais — fonte central de prisioneiros e, portanto, da prática antropofágica. Esse encontro cultural também foi marcado por uma intensa e precoce miscigenação. Casos como o de João Ramalho, português que viveu entre os índios, casou-se com filhas de caciques, sendo Bartira a mais conhecida, filha de Tibiriçá, e tornou-se figura-chave na mediação entre colonos e nativos, exemplificando como os mundos se entrelaçaram não apenas em conflitos, mas também em alianças e trocas culturais. Outro exemplo importante é o de Jerônimo de Albuquerque, nobre português, que se destacou como líder militar e político, evidenciando a formação de uma nova sociedade mestiça no nascedouro do Brasil colonial. Ele é chamado popularmente de “Adão pernambucano”, devido ao grande número de descendentes gerados aqui no Brasil e em Portugal. A história desse encontro é complexa e não deve ser reduzida a narrativas simplificadas, sejam elas apologéticas ou condenatórias. Cabe a nós buscar e compreender as fontes, os contextos, as contradições e os múltiplos interesses em jogo, evitando cair nas armadilhas ideológicas anacrônicas que tentam moldar o passado de acordo com agendas políticas contemporâneas. O descobrimento do Brasil foi, acima de tudo, um evento humano — marcado por grandezas heroicas e horrores, por violências e trocas, por perdas irreparáveis e criações inesperadas. Entender esse encontro é, em última instância, entender um pouco
mais sobre quem somos hoje.
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